A Importância do Cálculo de Incerteza no Laboratório

Um dos objetivos principais dos laboratórios que buscam acreditação pela ISO 17025:2017 é atestar a qualidade do serviço no sentido de atender o propósito de fornecer informações para avaliação da conformidade de produtos. Portanto, a importância da acreditação justifica-se pelo papel de vigilante que os laboratórios de ensaio têm para com o mercado consumidor.

E o laboratório de calibração, por sua vez, participa desse processo de confiabilidade extraindo a informação metrológica e garantindo rastreabilidade aos resultados dos equipamentos. Dessa forma, ambos devem passar por auditoria sensível para detectar problemas na etapa crucial do cálculo de resultado com incerteza de medição. 

A estimativa de incerteza de medição não deve ser vista como um cálculo a parte que deve ser feito paralelamente ao resultado. Essa ideia prejudica o aprendizado, cria distorções nos processos analíticos, e pode levar os relatórios para longe da realidade. A incerteza faz parte do resultado, por definição, e deve acompanhá-lo lado a lado, desde a planilha de cálculo até as publicações oficiais do laboratório. Afinal, de nada adianta uma memória de cálculo a qual só é vista no dia da auditoria, nem participa da regra de decisão de conformidade conceituada no item 3.7 da Norma ISO17025:2017

Paul De Bièvre, talvez um dos químicos mais versados em incerteza de medição do mundo, já dizia que resultados sem incerteza de medição não deveriam ser publicados, sequer deveriam ser levados a sério. Obviamente, um resultado sem incerteza não é um resultado na sua essência, ele justificava. Paul alertava que a única forma de uma medida servir como base de comparação para uma tomada de decisão, é que se tenha uma avaliação do risco dentro das possibilidades de erro de conformidade. Isto é, a situação na qual se pode aprovar um produto quando ele de fato está impróprio para o consumo, ou reprová-lo quando ele teoricamente estaria adequado para o uso. 

O resultado de medição deve ser provido de dois atributos: consistência matemática e representatividade. A consistência aqui tem o sentido de que a medida deve ser obtida por uma equação matemática que descreve o fenômeno natural relacionado àquele experimento. E, por consequência, a expressão da incerteza combinada surgirá do cálculo correto a partir da equação. Muitos erros ocorrem quando os laboratórios tentam inverter essa lógica, e tentam calcular a incerteza sem lançar mão da equação do mensurando. Por outro lado, a representatividade é o quão bem a equação definida descreve o fenômeno. Todas as variáveis e correções relevantes devem ser consideradas no modelo da medição. Outra grande dificuldade dos laboratórios é tentar incluir variáveis irrelevantes e desprezar as mais relevantes.

A avaliação externa, como dito no início, deve servir de filtro para evitar que estimativas deturpadas do resultado de medição carreguem o selo da acreditação. As avaliações mais permissivas, que não levantam as devidas não conformidades oriundas da estimativa do resultado com incerteza, fazem com que laboratórios adquiram a acreditação sem necessariamente mostrar um nível de excelência no tratamento da sua informação.

Um resultado mal estimado, seja ele sem incerteza, ou publicado com uma “incerteza fixa do método”, retira do fiscal a segurança para aplicar sanções ao produtor que fabrica ou comercializa um produto inadequado ao consumo. Incertezas subestimadas pelos laboratórios podem facilitar a entrada desses produtos no mercado. Portanto, a habilidade e a atenção dos avaliadores, e dos próprios analistas durante a análise crítica do resultado, são fundamentais e asseguram o cumprimento das suas respectivas funções na sociedade.

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